HISTÓRICO DO DESENVOLVIMENTO MUSICAL
Nasci numa família onde a musica se fazia presente: minha mãe era uma pianista bem dotada que estudara por muitos anos com a mestra francesa Mme.Renèe Devrainne. Meu pai, bailarino e coreógrafo formado no Teatro Nacional de Varsóvia e na Escola Imperial de Ballet de Saint Petersburg, na Rússia, tinha boa cultura de musica e, alem disso, era também muito dotado musicalmente, tocando piano de ouvido e tendo uma bela voz de barítono. Freqüentemente, nas reuniões que aconteciam em nossa casa, ele cantava canções russas e polonesas acompanhando-se ao piano, com muita propriedade. (Como curiosidade, cito o fato dele usar sempre tonalidades sobre as teclas pretas, como SOL b ou Mi b menor, um fato que sempre me intrigou). Minha mãe, por outro lado, praticava um repertório mais sério, dos clássicos europeus e muitas peças de Chopin. Ela tambem costumava tocar em duo com um violoncelista que nos visitava com freqüência.
Tínhamos em casa um piano vertical Bechstein, Sempre fui atraído pelo piano. Era um objeto imponente e um tanto misterioso. Muitas vezes, ficava brincando com suas teclas, ouvindo com curiosidade os sons produzidos. Não consta, no entanto, que eu tivesse sido capaz de executar melodias de ouvido. Revelava apenas curiosidade. Aos 7 anos, os pais decidiram que eu deveria tomar umas aulas com a mãe para aprender a tocar o instrumento e não ficar apenas “mechendo” nele. Depois de um ano de brigas e de ter, as duras penas, conseguido fazer uns 2 volumes iniciais do método Schmoll, minha mãe resolveu fechar o piano à chave, cansada de minha indisciplina. Depois de alguns meses, sentindo falta da música solicitei aos pais para retomar as aulas. Decidiram então dar-me uma nova chance encaminhando-me para a orientação de Mme.Devrainne.
Mme.Renèe Devrainne, era filha de um engenheiro elétrico francês que veio ao Paraná na primeira década do Séc.XX com a missão de supervisionar a construção uma usina elétrica. Numa das férias de verão, sua filha veio visitar o pai. Tinha recentemente se formado em piano na Ecole Normale de Paris, com louvor. Freqüentou inclusive vários cursos de alta-interpretação com o célebre pianista Alfred Cortot. Era uma pianista de grande qualidade. Por um acaso do destino, conheceu enetão o jovem flautista Jorge Frank, por quem se apaixonou e com quem casou. Fixou residência em Curitiba. Deu um impulso à vida musical da cidade e se revelou uma exelente mestra: formou muitos pianistas de vários estados sul-brasileiros.
Assim, desde os primeiros anos de estudo sério, tive a felicidade de ter recebido uma orientação de qualidade superior, como se tivesse viajado para a Europa. Foi essa competente mestra que me guiou de 1946 até 1953, ano de minha formatura na Escola de Musica e Belas Artes, onde ela chefiava o departamento de piano. Aprendi com ela não somente a tocar piano mas conhecer e amar a musica. Mme.Devrainne não se limitava a ensinar tocar piano. Reunia os alunos em sua casa, 2 vezes por semana para praticar solfejo e ditado musical e ensinar a Teoria da Musica. Organizava também, mensalmente, audições com seus alunos para que praticassem de tocar em publico e estudassem com maior entusiasmo. Organizava, com os alunos mais dotados, práticas de leitura à 1ª vista e piano à 4 mãos, para conhecer sinfonias, quartetos e outras grandes obras atraves das transcrições. E, alem disso, nas vésperas dos principais concertos que aconteciam em Curitiba, reunia os alunos para comentar e analisar as obras que seriam ouvidas.Recebiam assim, seus alunos, uma verdadeira educação estética.
Lembro que na época (década de 1940) não havia ainda a facilidade de termos gravações de musica clássica em LP ou CD. Os aparelhos de som eram ainda as “vitrolas” manuais de dar corda, cujo som era muito deficiente.Desse modo, conhecer musica clássica era somente ao vivo ou então por meio das estações de rádio do Uruguai (Radio Sodré) ou da Argentina (Rádio Del Estado) que transmitiam muitos concertos ao vivo. De nossas estações locais apenas duas tocavam musica clássica e isto acontecia somente na 6ª feira da semana da Páscoa.
Meus progressos no instrumento foram bem rápidos. No terceiro ano já iniciava as sonatas de Mozart, no quarto, as de Beethoven e o Cravo Bem temperado. Desenvolvi também uma boa leitura à 1ª vista e passei a acompanhar vários cantores amadores e colegas estudantes. Aos 12 anos de idade meu pai me convidou para acompanhar algumas classes de Ballet, no curso que ele dirigia; mantive essa função por vários anos. Desenvolvi ali a capacidade de improvisar pequenos temas para exercícios de ballet e obedecer a quadratura de 8, 16 ou 32 compassos, que eram usados nesses exercícios.Aos 14 anos dei meu primeiro recital, na Sociedade SCABI, na série “Jovens Talentos”.
Ingressei na Escola de Musica (EMBAP) aos 16 anos e, como a lei permitia, fui aceito no Curso Superior antes de terminar o Curso Colegial. Continuei sob a tutela de Mme.Devrainne e tive também professores de outras disciplinas. Entre esses, recebi um estimulo especial de Jorge Kaszás, um maestro húngaro formado no Conservatório de Budapest, que alem das aulas de harmonia estimulou minha criatividade, permitindo-me compor pequenas peças pára piano ou vozes, alem dos exercícios obrigatórios.. Também o compositor paranaense Bento Mossurunga me transmitiu o gosto e o respeito pela musica mais simples, inspirada nas tradições populares.
No ano de 1950 fui convidado pelo cura da Catedral para tentar tocar o órgão de tubos Cavaille Coll que esse templo possuía. Fiquei encantado com o instrumento e aceitei o posto de organista que me foi oferecido logo em seguida. A Catedral tinha um bom coral feminino que passei a acompanhar nas missas e casamentos. Seu diretor, Rodrigo Hermann, que havia estudado com o conhecido organista e compositor Furio Franceschini, de São Paulo, era exelente regente, organista e muito bom professor de canto. Ele me transmitiu preciosos ensinamentos de órgão e de composição. Foi ali na Catedral que escrevi as minhas primeiras peças corais, dedicadas ao seu coral feminino.Várias delas foram executadas em importantes ofícios. A que mais se destacou, o “Pro Pace”, foi incluído no repertório de um grande Congresso Eucarístico que aconteceu em Curitiba, em 1953 e foi cantado por um coral de mais de 250 vozes, formado especialmente para essa ocasião.
Terminados meus estudos em Curitiba, fui me aperfeiçoar em São Paulo, na Escola Livre de Música, um centro de estudos avançados dirigidos pelo prof .H.J.Koellreuter. Fiz com o mesmo disciplinas de harmonia, contraponto, análise e composição.Por outro lado prossegui os estudos de piano com o pianista Henry Jolles, de alta linhagem musical, tendo sido aluno de Schnabel e Eugene d’Albert. Com Koellreuter, aprendi muito sobre a modernidade e a musica do Séc.xx. Com Jolles, o refinamento pianistico e interpretativo da
grande tradição pianistica européa. Jolles era um grande interprete de Bach, Mozart e Schubert e também muito versado na literatura mais contemporânea. Foram dois anos de estudo (1954-1956) muito produtivos. Continuei também com meu trabalho de correpetidor afim de pagar a maior parte de meus estudos (vide o artigo: ...........,).
Durante esse tempo, tive também a oportunidade de conhecer um pequeno órgão eletrônico que me foi apresentado por Krzysztof Cybulski, um engenheiro eletrônico, filho de uma família polonesa onde eu estava hospedado. Ele pediu que eu avaliasse as possibilidades musicais desse pequeno organeto pois, estudava uma proposta para fabricá-lo em São Paulo. Fiquei encantado com esse novo instrumento e antevi grandes possibilidades para o seu desenvolvimento futuro. Como resultado, fui contratado para supervisionar o seu desenvolvimento na industria de órgãos WHINNER uma pioneira desse campo, no Brasil. Dediquei vários anos à este trabalho. Infelizmente, a fabrica sobreviveu por poucos anos, mas criou órgãos eletrônicos de grande qualidade técnica e musical (vide meu artigo sobre os Órgãos Whinner).
Entrementes, veio a notícia da realização do IV Concurso Internacional Frederic Chopin, em Varsóvia e, atraves da escola de Curitiba, fui instado por Mme.Devrainne para que me inscrevesse ao mesmo, como representante do Paraná, uma vez que aqui havia uma numerosa colônia polonesa da qual eu era descendente. Foi um ato de bravura me preparar durante 2 anos para essa competição dificílima, acima de minha capacidade pianística, mas que, por outro lado abria um estímulo novo em minha vida e me oferecia a possibilidade de conhecer de perto a terra de meus antepassados e quem sabe prosseguir meus estudos? Foi o que realmente aconteceu. Participei apenas da 1ª fase da competição, mas, me ofereceram uma Bolsa da Sociedade Polônia para que eu fizesse um aperfeiçoamento pianistico com a mestra Margherita Trombini-Kazuro, uma destacada pianista italiana casada com um compositor polonês, ambos professores da Escola Superior de Musica de Varsóvia. Desse modo, pemaneci o ano de 1960 na Polônia e lá tive a oportunidade aprender bastante sobre a musica de Chopin e a arte de tocar.
De volta ao Brasil, retomei o trabalho na Whinner. Por outro lado, comecei a escrever uma obra coral (Salmo 22) e estimulado pelo amigo e colega Samuel Kerr, então um jovem organista e regente de grande talento e que também trabalhou na Whinner. Ele me ofereceu a confiança e o impulso inicial que resultou no desenvolvimento de minha carreira de compositor. Mais tarde, ambos participamos dos famosos Cursos Internacionais de Musica do Paraná, dirigidos pelo eminente maestro Roberto Schnorremberg, em Curitiba, de 1962 à 1971. Foram várias a obras que escrevi nesse período (vide a cronologia.......)
Com o encerramento das atividades da Whinner tive dificuldade de me manter em São Paulo. Providencialmente, me ofereceram a possibilidade de assumir o cargo de professor de acústica e composição na EMBAP, em Curitiba.A Escola tinha sido ampliada e contava com o Curso Superior de Musica reconhecido pelo Governo Federal. Havia um quadro de carreira estruturado. Aceitei o convite e me transferi para Curitiba.
Em 1964 assumi o cargo de professor na já citada EMBAP onde lecionei matérias teóricas e assumi várias funções administrativas, como a de Chefe de Departamento, Coordenador de Atividades Artísticas, Vice-Diretor. Em 1975 prestei concurso na Universidade Federal do Paraná, no Departamento de Artes onde lecionei várias disciplinas do Curso de Educação Artística e onde me aposentei em 1993. Durante esses anos tomei parte em muitas atividades culturais e artísticas, dedicando uma parte do tempo para compor novas obras. Minhas trabalhos passaram a ser conhecidos nacionalmente à partir de minha participação nas Bienais de Musica Contemporânea Brasileira, do Rio de Janeiro.(ver detalhes em cronologia)
Em 1979 tive a oportunidade de me candidatar à uma Bolsa para estudos de pós-graduação e fui aceito pela Universidade de Cornell, em Ithaca, no estado de New York, para a realização do Mestrado em Composição Musical, sob a orientação do eminente compositor Karel Husa. Terminei esse ciclo de estudos em 1979, no Ithaca College da mesma cidade, sob a orientação do mesmo compositor, o qual entrou em período sabático em Cornell. Foram dois anos de trabalhos intensos e muito proveitosos e várias obras escritas durante a esta permanência nos USA. A convivência e interação com um compositor do nível e da grande experiência de Karel Husa, me proporcionou não só um progresso técnico-musical mas abriu muitos novos horizontes e uma visão mais abrangente da música.
Retornando em 1981 para a UFPR prossegui em minhas atividades didáticas, culturais e de composição, em Curitiba, até os anos de 1997, quando então mudei minha residência para a cidade de Londrina, onde permaneci até o ano de 2002. Nessa cidade, pude me dedicar mais especialmente á musica coral e as composições para voz, segmento da musica que passou a me interessar cada vez mais. Nesse período, participei de vários Festivais de Musica tradicionais dessa cidade, onde várias de minhas obras foram executadas e gravadas. anos. Celebrei também em Londrina os 50 anos de atividade como compositor, fato comemorado com varias apresentações de minhas obras e a edição de um CD comemorativo. Ainda nesse período, tive várias obras executadas e publicadas no exterior.
Em 2003, aceitando um convite da Escola de Musica e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás, mudei de residência para Goiânia, onde permaneci até 2006. Nesses anos assumi o cargo de professor de composição e matérias teóricas, lecionando na graduação e também no Curso de Especialização. Prossegui também com a
Composição de novas obras para canto, coral, piano e, uma novidade para mim, o violão, aproveitando a presença de ótimos executantes nessa faculdade. Tive muitas obras executadas em apresentações realizadas tanto na escola de musica como nos teatros da cidade, sendo várias em 1ª audição mundial.
Em fevereiro de 2007, mudei novamente de residência, retornando à Curitiba.
Em fevereiro de 2008 Henrique de Curitiba morre.
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